Segunda-feira, Abril 17, 2006

Desabafo

Para estrear meu Blog escolhi o texto abaixo escrito por mim há uns dez meses ou um ano. Apesar de ser um desabafo antigo é perfeitamente coerente com o nome do espaço e sua proposta.

Todos nós, um dia, sem motivo aparente, nos deparamos com uma situação incomum. Em um estalo, ocasionado sem explicação, nosso pensamento, normalmente ligado ao cotidiano, nas questões imediatas da vida, resolve quebrar a rotina e apontar para os rumos tomados em momentos anteriores.

Estou em um momento desses. A escolha de minha faculdade e de meus estágios fazem parte de questionamentos que vão além das questões acadêmicas, e atingem o fundo de meu íntimo. Sinto que segui por alguns caminhos errados, tomei decisões equivocadas, porém as valorizo como experiência.

É duro para um estudante de Direito, ou quase ex, constatar as grandes deficiências nas instituições fundamentais para o bom funcionamento do Estado. Estudar algo que não encontra nenhum reflexo na realidade, desanima qualquer um.

Para exemplificar, começo pela polícia, cuja finalidade, em tese, é servir e proteger a toda população. Tal objetivo é dificultado pela corrupção endêmica e pela truculência, claramente visíveis. É normal saber de policiais que agem como se bandidos fossem.

Essas práticas lamentáveis infelizmente já não causam nenhum espanto devido à freqüência com que acontecem. Uma cervejinha para não multar carros irregulares, um cafezinho para liberar pessoas envolvidas em pequenos delitos. O que falar, então, da prática do “acerto” que consiste em seqüestrar um bandido e cobrar o resgate de seus comparsas.

Além da corrupção a polícia comete uma série de abusos para com as camadas mais pobres da população. Isso faz com que sua credibilidade e imagem já desgastada se tornem ainda mais abaladas. O absurdo é tamanho que esquadrões da morte formados por policiais propagam a violência que os mesmos deveriam combater.

Nos setores mais altos da res publica percebemos que a maioria dos representantes da classe política não se porta como cidadão, mas como indivíduo. Falta para essas pessoas a consciência de coisa pública. Esquecem imediatamente após as eleições que foram escolhidos pelo voto popular.

Ao chegar ao congresso, assembléias legislativas ou câmara de vereadores, políticos indecorosamente começam a exercer seus próprios interesses. Colocam o povo de lado em prol de possíveis benefícios particulares. Além disso, as rixas criadas pelas diferenças partidárias se sobrepõem claramente ao bem comum.

No poder executivo acontece um fenômeno muito interessante. É de praxe que um governante nunca dará seguimento às obras e aos bons projetos iniciados por seu antecessor. Não há um projeto de Estado. Existe somente plano de governo, o que limita as ações ao período de quatro anos onde tudo será desfeito e feito novamente.

Não se faz uma política de educação, de saúde, de habitação, ou de segurança pública (que engloba todos os itens anteriores) em apenas quatro anos. E nunca será feita enquanto o pensamento político for este.

São cristalinas também as mazelas do judiciário. A Justiça é amarrada por um código processual que permite uma infinidade de recursos. Para quem pode pagar um bom advogado a impunidade é certeza, pois “justiça que tarda mais não falha” na verdade falha.

Falha porque não se respeita a visão social do Direito. Os mecanismos punem severamente pequenos furtos cometidos por pobres coitados, enquanto dificulta a punição de grandes crimes cometidos por distintos senhores com seus colarinhos brancos impecáveis.

Um diagnóstico preciso da situação não caberia em apenas uma página. Porém procuro exemplificar superficialmente o problema que passamos. Especialmente os estudantes de Direito. Descrevo poucos casos, mas que deixam claras as grandes mazelas institucionais do nosso país.

Só percebemos a profundidade das coisas quando deixamos de lado o óbvio do cotidiano e partimos para análises mais profundas do que nos cerca. As notícias são as mesmas todos os dias no Jornal. O que precisamos é de REFLEXÃO.

1 comentários:

Bernardo disse...

"É duro para um estudante de Direito, ou quase ex," vc pensou em largar a faculdade??

Vc disse que fez esse texto há um tempo atrás... é a primeira vez que vc divulga?

Outra coisa, um dia quero escrever que nem vc!