Semana passada, ou retrasada, ou mês passado, sei lá... isso não importa muito... foi divulgada pelos jornais uma pesquisa de opinião afirmando que mais da metade dos cariocas sairia do Rio se tivesse a oportunidade, e em um dia desses, Chico Buarque um carioca ilustre, declarou que seu amor pelo Rio já fora maior.
Na estatística, amplamente difundida, os moradores da cidade apontavam a violência como principal causa do possível êxodo, ou do auto-exílio. Não faço parte da maioria desta pesquisa, apesar das mazelas que presencio todos os dias, seja nas calçadas, nas janelas, nos jornais ou na televisão (mais nos jornais e televisão). Deixo registrado aqui que ninguém me perguntou nada em pesquisa alguma.
Mesmo assim, sem ser perguntado, ao tomar conhecimento do resultado da pesquisa, me coloquei a pensar na relação que tenho com a cidade onde nasci há 23 anos e moro desde então. Podem me chamar de louco, mas ainda acho o Rio o melhor lugar para se viver, e ao invés de simplesmente reclamar, temer, e me enjaular cada vez mais, eu vivo a cidade e faço dela parte fundamental da minha vida.
Seria hipócrita afirmar que tudo vai bem no Rio, soaria como um doente que nega sua doença, e por outro lado seria óbvio demais defender a cidade elogiando apenas suas paisagens naturais. Assisto como todos a decadência da cidade e vejo infelizmente o que o Rio tem de pior, mas me dou a oportunidade de enxergar também o que temos de melhor.
É fácil se render à onda de pessimismo que nos assola, estamos cercados de grades, trancas, com medo de tudo, de todos e lendo a parte policial dos jornais reclusos em nossos apartamentos. Mas eu sou teimoso e não me rendo, com minha vontade de viver sigo com minha resistência pacifica. (um movimento de um só não é um movimento, porém não estou sozinho nesta resistência silenciosa)
Conheço outras pessoas, que como eu, saem pelas madrugadas, e ao invés de assaltantes, vêem trabalhadores voltando para casa, bêbados cambaleando, mendigos dormindo... Isso mesmo, eu conheço um Rio oculto, dos notívagos e boêmios, o Rio que é pacífico de noite (para quem não tem muita coisa a ser roubada e toma seus devidos cuidados).
Minhas histórias noturnas não são poucas e não caberiam em apenas uma página, mas tenho em minhas lembranças alguns dias em que ignorei solenemente qualquer aviso de que a cidade é violenta. Não foram poucas as vezes que caminhei, andei de ônibus ou bicicleta pela noite. E gostaria de dividir com os 2 leitores do meu blog algumas dessas histórias para exemplificar.
Começo contando quando uma prima minha de São Paulo veio ao Rio e quis conhecer nossa “balada”, como ela vinha de uma megalópole, onde se percorrem grandes distâncias de carro diariamente, sugeri algo que fosse diferente para ela naquele momento e ela aceitou. Naquele dia fomos de bicicleta para a “balada”, pedalamos de noite pela orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, observados pelo Cristo Redentor, que do alto do Corcovado estava de braços abertos, no caminho ela tirou várias fotos, e no fim da noite ela me relatou que dificilmente esqueceria algo tão incomum. Deixou de lado a rixa entre nossas cidades e se pôs a elogiar o Rio.
Outra vez, voltando de um bar, onde tinha acontecido a despedida de uma amiga que ia passar um tempo no exterior, e de bicicleta novamente, carreguei na garupa uma mulher com quem eu estava saindo, mais velha do que eu, e apesar de ela não estar muito acostumada com essas idéias de moleque maluco, sei que ficou na memória dela aquele passeio noturno que teve como cenário as palmeiras do Jardim Botânico.
Porém o mais inusitado mesmo aconteceu ao voltar de um show na Fundição Progresso, usando minha voz de puxador de samba, e minha cara-de-pau, fiz com que os passageiros de um ônibus inteiro cantassem marchinhas de carnaval durante toda a viagem, isso poderia ser algo até relativamente comum se estivéssemos perto do carnaval e não em maio, e se as pessoas tivessem saído de um show de Samba, não de Reggae.
Falando em ônibus, também foi diferente o dia em que, junto de uma amiga, não saí do ônibus circular ao desistir de ir para a Lapa. Dessa forma nós voltaríamos para casa sem ter que saltar e pegar outro coletivo. O pequeno detalhe é que não sabíamos que o motorista estava com tempo de sobra, e que esse tempo seria usado para que conhecêssemos melhor a cidade. Ele resolveu passear pela Central do Brasil, mas não posso reclamar, o trocador foi um ótimo guia turístico que competentemente nos mostrou cada canto da central. (muito didático)
O último exemplo de minhas andanças pela madrugada aconteceu neste fim de semana, quando, ao voltar do Show do Alceu Valença no Circo Voador, bem acompanhado, diga-se de passagem, fiz uma breve caminhada, nem tão breve, da Lapa à Laranjeiras, com alguns chopes a mais no sangue, e ainda animados com o excelente show, dançamos um pouco pela rua sem que houvesse nenhuma música, e como o caminho é longo bebemos algumas águas, ou melhor, “as águas”.
Todas essas vezes, e muitas outras valeu muito a pena esquecer a violência e curtir a vida noturna do Rio, conhecer pessoas interessantes e presenciar reações inusitadas em momentos idem.
Por conta do que escrevi, e principalmente de muitas memórias, lanço aqui então o manifesto pela preservação da alma e do bom humor do carioca. Lembro antes o óbvio: As autoridades competentes têm de fazer seu papel para melhorar nossa segurança, afinal estamos completamente desamparados. Porém devemos também colaborar para que a cidade continue maravilhosa. Mais do que em qualquer ponto turístico, está dentro de nós, dos cariocas, o maior patrimônio cultural do Rio e cabe a nós preservá-lo.

4 comentários:
Fala João! Texto realmente muito bem escrito e muito interessante....pq afinal suas andanças sao sempre inusitadas.....e jah fiz parte de varias delas .... e tenho a mesma opiniao pois continuo achando o Rio umas da melhores ou a melhor cidade pra se viver.... nao só pela beleza mais pela energia da cidade literalmente maravilhosa... E nem todas tem esse poder de mistura de tribos!!! Bom jah to fugindo um pouco do assunto então fico por aqui...beijos carinhos da sua irmazinha!!!
Engraçado, a historia do onnibus da Central parece com uma que tenho...
Bem, concordo em partes com voce. Não podemos desprezar tantas coisas boas que o Rio nos oferece por causa da violencia. Voce não passar por situações complicadas na madrugada(ou de dia tambem) quer dizer que voce é um felizardo.
Independente de não acontecer de fato nada contigo e comigo, não afasta a sensação de instabilidade, de medo que andamos por aí...E é a essa sensação que quero dar um basta.
Bjão, moço!
Fala erótico, apesar de nao fazer parte de nenhum desses fatos =/ já estive com vc em uma caminhada, nao tao longa e nem na madrugada, mas foi uma caminhada que nao me esqueço mais... Perto das suas histórias é praticamente irrelevante mas nao me esqueço do dia em que voltamos da 1ª chopada na faculdade rimando por Icarai!!!
Obrigado por esse e outros momentos!!!
Ah, seu maldito vc tem TRES leitores ok? e ve se aparece na aula!!!
beijosss
Parabens pelo belo texto, como um carioca, bem mais velho, e amante dessa CIDADE MARAVILHOSA, fico satisfeito em encontrar outros entusiastas pela nossa querida cidade.
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