
Tudo aconteceu na última sexta-feira, um dia aparentemente comum. Até o momento da insólita viagem ao passado. Por volta das seis horas da tarde saí do escritório em direção à casa da minha mãe (que há pouco tempo também era a minha).
Fui andando para o Largo da Carioca, onde fica o ponto final da linha que costumava pegar antigamente, 217 (Andaraí - Carioca). Chegando lá, o ônibus estava no mesmo lugar de sempre. As pessoas eram idênticas às de outrora, menos eu, que já estava diferente.
Entrei no coletivo me sentindo um estranho no ninho, e sem perder o velho hábito que tenho, fiquei sozinho, quieto no meu canto, como se fosse invisível, observando as pessoas, suas reações, forma de vestir, gestos, pensei em determinado momento que poderia reconhecer alguém, mas não. Eram só estranhos.
O ônibus deu a partida, passei a olhar pelas janelas, e em vez de enxergar a paisagem fui me perdendo no longo caminho de lembranças que vai do centro à Zona Norte. As recordações, como em um livro, ou melhor, como em uma agenda, vieram em ordem cronológica.
Passando ainda pela Central, comecei a voltar à infância, recordei as várias brincadeiras com meus amigos: pique-pega, pique-esconde, quantos piques... Polícia e ladrão, carrinho, bolinhas de gude, taco e muitas outras daquele tempo sem preocupações.
Lembrei dos bobos medos da infância, como a lenda da “loira da escada”, das brigas que tinha com os moleques maiores que eu, e da ameaça constante de broncas dos meus pais, levando em conta que eu estava sempre aprontando alguma.
Pensei também na bicicleta vermelha que tinha, nela pedalava por toda a vizinhança, e com a imaginação que só uma criança pode ter, a bicicleta colorada se transformava em carros, ônibus e até foguetes, dependendo do dia e de minha inspiração eu podia ser desde um motorista de caminhão a um astronauta.
As lembranças, com o passar do caminho, afloraram numa onda sem volta, um verdadeiro tsunami de passado. Pensei no colégio onde estudei no primário. Como era enorme, tinha campo de futebol, ginásio, piscina, mini-zoológico, tobogã!!! Isso mesmo um colégio com tobogã!!! E tudo isso dentro da floresta da tijuca. Uma linda escola onde qualquer garoto gostaria de ter estudado, e eu, naquela época, como uma criança criativa que era, acreditava piamente que naquele enorme lugar cheio de passado encontraria tesouros escondidos (o único tesouro que achei, anos depois, foram recordações que tenho de lá).
O ônibus, que me levava ao passado não respeitou a imensidão de lembranças que tenho e de certa forma foi mais rápido que elas, pois são tantas, que encheriam inúmeras páginas em branco com escritos que provavelmente só interessariam a mim.
Em um breve momento de lucidez percebi que já estava passando pela Rua Amaral, onde ficava o colégio que estudei até a oitava série. Este era muito diferente do anterior, era composto por dois prédios que mal tinham canteiros, imagine se teria uma floresta... Tobogã então... Nem pensar...
No início não achei muita graça ter de mudar, mas meus pais alegaram que no novo colégio o ensino era mais forte (o que isso interessa a uma criança de 11 anos? Eu queria mesmo era brincar no tobogã...). Lembro de alguns bons momentos nesta escola, mas não foram meus anos mais felizes.
Durante esta época, na escola de concreto, comecei a entrar na puberdade, aquele período de brincadeiras e medos infantis começou a desaparecer, foi gradativamente dando lugar a passatempos diferentes, os piques e carrinhos começaram a conviver com a brincadeira de salada-mista e com as festinhas regadas a refrigerante, onde passei a olhar as meninas de uma forma diferente. Minha voz começou a engrossar, pêlos a nascer, e os hormônios foram mudando meus interesses.
De repente voltei ao presente, o ônibus havia chegado à Rua Barão de Mesquita, já era hora de saltar, as lembranças da adolescência ficaram para outro dia, lamentei como nunca a proximidade do Andaraí com o Centro.
Entrei no prédio da minha mãe ainda pensando na viagem que fiz ao passado. No elevador cheguei à conclusão que cada rua, cada esquina dessas que me trás uma lembrança é, de certa forma, minha cúmplice, e de suma importância em minha vida, em meu crescimento, e por mais que eu me mude para diversos lugares, ou rode o mundo, sempre saberei quanto o Andaraí, com meus amigos, meus colégios e agora minhas recordações, foi importante em minha formação.
Saí do elevador e vi minha mãe a me esperar, sem dizer nada a abracei. E em silêncio agradeci a ela pela infância que, juntamente com o bairro, ela me proporcionou.




