Segunda-feira, Julho 28, 2008

Cine Reflexões

Documentário sobre o Profeta Gentileza, um "louco de Deus" que viveu no Rio de Janeiro e pregou por todo Brasil sua mensagem anti-capitalista, ecológica, social e religiosa, cujo ponto de partida é a máxima "Gentileza gera gentileza". O depoimento de Gentileza, sua atuação nas ruas do Rio de Janeiro e o registro de sua obra pictórica são os grandes atrativos do filme.


Para assistir ao filme clique aqui

Sexta-feira, Julho 18, 2008

90 anos

A pele morena fora a mais bela do Rio de Janeiro, hoje não mais ostenta o brilho de outrora. Os cabelos castanhos, ondulados, nos áureos tempos atraíram as atenções dos homens e inveja de mulheres, hoje, embora ainda caudalosos, não mais exibem a mesma cor. Os olhos, cor de mel, hipnotizaram muitos admiradores, hoje não enxergam mais com a mesma nitidez. Os ouvidos, sempre atentos às melhores lições, e privilegiados pelo convívio com intelectuais, hoje não mais escutam com a mesma clareza.

O coração, magnânimo, tinha o poder de amar incondicionalmente e hoje ainda detêm este poder. Amou e cuidou de seu marido plenamente, fez deste um homem absolutamente feliz, ama integralmente suas filhas, que por ela têm imenso amor e admiração, ama seus netos, todos orgulhosíssimos da avó carinhosa e intelectual e ama seu bisneto, que do alto de sua compreensão infantil percebe claramente o quão especial é sua bisavó.

A mente privilegiada foi atenta espectadora das lições da Faculdade de Direito nos idos dos anos 30 e mais que isso, exímia observadora dos ensinamentos da vida. A leitura é sua companheira constante, e nos livros ela vibra ao ler o escrito e não escrito, por meio deles viaja a um sem número de países e até mesmo pelo tempo.

Tempo que sutilmente passou, mas em sua crueldade deixou marcas, a beleza física progressivamente deu lugar à experiência. A grande carga de conhecimento aliada à inteligência nata a tornaram uma sábia, uma pessoa com a visão extremamente lúcida de um tempo que não é mais o seu.

Um dia o homem que a amava, meu avô, se foi. Um vazio sem fim n’alma dela se abriu. A casa, por mais cheia que estivesse nunca mais ficou completa e o coração, generoso como sempre, não mais cicatrizou, nem nunca mais cicatrizará a ferida da perda de um companheiro por 60 anos.

Neste triste dia um netinho foi morar com ela, este privilegiado neto era eu.

Por quatro anos tive o privilégio de conviver diariamente com uma pessoa que transborda de carinho e sapiência. Neste período recebi doses homeopáticas de sabedoria, através de exemplos, críticas e conselhos. Passei por altos e baixos e aprendi muito com a honra de ter do meu lado uma avó muito querida. Mais do que isso, tive ao meu lado uma grande companheira, que me transmitiu ensinamentos úteis para toda a vida.

Agora eu me despeço do convívio diário, o tempo passou e minha vida me levou para outros caminhos e quem terá a honra deste convívio é outra neta. Não tenho dúvidas que esta netinha, assim como eu, crescerá muito com a doçura do convívio de alguém que ainda tem muito a ensinar.